Caos fiscal, desmonte dos serviços públicos e população penalizada são consequências da gestão do Novo em MG, dizem analistas
Prometendo ficar no governo do Estado até abril de 2026, quando deve deixar o cargo para disputar as eleições presidenciais ou uma cadeira no Senado, Romeu Zema (Novo), na avaliação de especialistas, deixa Minas Gerais quebrado, sem nenhuma marca significativa da gestão e com cenário inédito de desmonte dos serviços públicos.
Nos quase oito anos em que está sob o comando do governador, a dívida do Estado com a União praticamente dobrou, passando de R$ 88,7 bilhões, em 2019, para R$ 177,5 bilhões, em 2025.
Os números contrastam ainda com outros dados alarmantes, como os do aumento da sonegação fiscal e concessão de benefícios a setores do empresariado, em especial as mineradoras e locadoras de automóveis.
Política econômica desastrosa
Dados divulgados pelo Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Estadual (Sindifisco-MG) indicam que, com Zema, Minas Gerais deixa de arrecadar R$ 11,3 bilhões anuais do setor minerário. Ou seja, ao mesmo tempo em que acumula uma dívida bilionária, o governo abre mão de receber bilhões em impostos de empresas privadas, como alerta a deputada estadual Bella Gonçalves (Psol).
“Zema tenta chamar a atenção, mas não deixa nenhum legado positivo e acumula uma série de desastres. Do ponto de vista econômico, é extremamente desastroso. Ele fez com que a dívida pública dobrasse. E, mesmo assim, neste cenário, atua como se Minas Gerais não tivesse um problema fiscal”, enfatiza a parlamentar.
Ela relembra que, além de abrir mão de receber recursos de empresas, o governador articulou e conseguiu a aprovação, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), de um reajuste de aproximadamente 300% em seu próprio salário. Hoje, recebendo R$ 41.845,39, ele é o segundo governador mais bem pago do Brasil.
“Aumentou o salário em 300%; ampliou as isenções para as empresas, aprofundando a sua relação com empresários; tenta vender as empresas públicas, não para reinvestir no Estado, mas para ter dinheiro para fazer campanha. Ele está arruinando nosso patrimônio para continuar aplicando uma política de ‘gastança’ e de privilégio para os seus amigos empresários. Ele governa Minas Gerais para agradar o setor financeiro”, continua Gonçalves.
Indícios de corrupção
As relações com o empresariado também ganharam destaque com as investigações da Operação Rejeito, da Polícia Federal, que identificou um esquema de corrupção, fraudes e lavagem de dinheiro na mineração, com participação de membros do governo Zema.
A ação da PF expediu 79 mandados de busca e apreensão, determinou 22 prisões preventivas e bloqueou R$ 1,5 bilhão em bens de empresas, empresários e servidores públicos.
Ao mesmo tempo, servidores do Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema) de Minas Gerais, que fizeram uma greve de quase 100 dias, iniciada em 1º de setembro de 2025, denunciaram uma prática sistêmica de desvios no setor, sob a gestão do partido Novo.
Ficou comprovado com a Operação Rejeito que empreendimentos minerários tiveram licenciamento ambiental facilitado, mesmo aqueles que ameaçam regiões estratégicas, como é o caso da mineração na Serra do Curral, que, além de ser o cartão-postal de Belo Horizonte, é fundamental para o abastecimento hídrico da capital e dos municípios do entorno.
No início de dezembro, Zema também foi convocado a comparecer na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), por deter 16,41% das ações da Zema Crédito, Financiamento e Investimento S.A., grupo investigado por oferecer crédito a aposentados e pensionistas de forma irregular, com autorização recebida durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL) na Presidência da República.
“Zema posa de empresário bonzinho, mas a CPMI do INSS mostrou que a financeira da família dele usou e se beneficiou das relações com o Bolsonaro para tirar dinheiro do povo pobre do Brasil. Ele foi um dos beneficiados por esse esquema. Esses sujeitos usam o Estado para ganhar dinheiro e não para melhorar a vida da maioria da população”, chama a atenção o vereador de Belo Horizonte Bruno Pedralva (PT).
Além das investigações sobre a financeira da família do governador, no início de 2025, a Cidade das Águas Transportes Ltda., transportadora que presta serviços ao Grupo Zema, foi autuada por submeter 22 trabalhadores a condições análogas à escravidão em uma ação fiscalizatória do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Outras investigações também indicam que o governador de Minas possui relações com o dono do Banco Master, Daniel Bueno Vorcaro, preso em novembro, mas já em liberdade, e acusado de provocar um rombo de R$ 41 bilhões em emissão de títulos de crédito falsos.
Vorcaro também administra fundos de investimento da Taquaril Mineração S.A (Tamisa), mineradora que teve a atividade na Serra do Curral suspensa pela Justiça diversas vezes, mas que contou com a defesa do governo Zema. A Polícia Federal também investiga as possíveis relações de Vorcaro com o Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil.
“Eu estou bastante segura de que a continuidade das investigações da Operação Rejeito iria chegar em Vorcaro e, inevitavelmente, também no Zema. O problema é que o governo está tentando fazer uma verdadeira ‘operação abafa’, como forma de blindagem do governador”, denuncia a deputada Bella Gonçalves.
Quem paga a conta?
Na avaliação da parlamentar, enquanto setores corruptos do empresariado enriqueceram durante o mandato do atual governador, quem está pagando a conta é justamente o povo mineiro. Há no estado sucessivas denúncias de subfinanciamento de áreas estratégicas, como saúde, educação e segurança pública, impactando o cotidiano da maior parte da população, que depende dos serviços públicos para sobreviver.
O governo Zema não entregou, até dezembro de 2025, nenhum dos seis hospitais regionais prometidos durante a sua campanha, mas, ao mesmo tempo, ameaçou fechar hospitais públicos importantes, como o Alberto Cavalcanti, o Eduardo de Menezes, o Odete Valadares e o João Paulo II, em Belo Horizonte, e o Hospital Regional João Penido (HRJP), em Juiz de Fora. O executivo também é criticado por precarizar e tentar privatizar a rede da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig).
“Enquanto isso, trabalhadores seguem exaustos, estrutura segue sucateada e a população continua dependendo dos hospitais para sobreviver. Em vez de investir, fortalecer e ampliar o serviço público, o governo prefere repassar dinheiro para que entidades privadas façam o que já deveria estar sendo feito com recursos e gestão estatal”, denunciou o Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sindisaúde-MG).
O cenário de desmonte é o mesmo relatado por servidores que atuam na segurança pública. Acumulando 48,5% de perdas inflacionárias, os trabalhadores das polícias civil e militar do estado tiveram o reajuste negado pelo governador e relatam ausência de estrutura básica, como falta de viaturas.
Ao mesmo tempo, dados divulgados pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) no início de 2025 indicam que os homicídios aumentaram 4,6% em Minas Gerais, entre 2023 e 2024, enquanto no Brasil apresentou queda de 5,4% no mesmo período.
Na educação, as políticas da gestão Zema também amargam uma série de críticas. Não cumprimento do pagamento do Piso Salarial Nacional; existência de profissionais recebendo menos que um salário mínimo; ameaça à autonomia escolar; insistência na militarização das escolas; redução de verbas; descumprimento de decisões judiciais; autoritarismo, terceirização; e a criação de programas que favorecem a iniciativa privada e enfraquecem a gestão pública, como o Mãos Dadas e o Somar, são algumas das denúncias dos trabalhadores.
“A transformação das escolas em ‘escolas-empresa’ tem cobrado um preço alto de quem vive a educação todos os dias, com metas produtivistas irreais, falta de condições básicas de trabalho, assédio moral e adoecimento. A educação não pode ser tratada como mercadoria”, enfatizou o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (SindUTE-MG).
Privatizações
Em relação às empresas públicas, mesmo as pesquisas de opinião indicando que cerca de 60% da população é contrária à privatização, o governador insiste em entregar a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) para a iniciativa privada.
Com o argumento — já desmentido pelo governo federal — de que isso seria necessário para aderir ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e renegociar a dívida de Minas com a União, a gestão Zema aprovou na ALMG uma emenda à constituição (EC) que acaba com a obrigatoriedade de realização de um referendo popular, ou seja, de ouvir a opinião da população, para a venda de empresas estatais.
O governo também corre com a tramitação de um projeto de lei que autoriza a privatização da Copasa, já aprovado em primeiro turno e que deve ser novamente apreciado pelos deputados estaduais nesta semana. Além disso, o Executivo propõe transformar a Cemig em corporation, ficando com apenas 17% do poder decisório da estatal e passando 83% para as mãos do poder privado.
As tentativas de privatização em Minas acontecem em meio à crise enfrentada por outros estados que já desestatizaram empresas que atuam em setores essenciais, como distribuição de água, energia e saneamento. Esse é o caso de São Paulo, onde, cinco dias após uma ventania, mais de 30 mil clientes da Enel, empresa privada, ainda estão sem energia.
A Cemig foi uma das empresas de outros estados a deslocar equipes para ajudar na contenção do atual cenário da capital paulista. Na maior cidade do país, famílias, em especial das periferias, também sofrem constantemente com a falta de água, desde que a Sabesp foi privatizada em 2024.
Nas duas companhias mineiras de saneamento e energia, trabalhadores também denunciam um quadro de retirada de direitos, precarização dos serviços, ampliação das terceirizações, assédio moral e perseguição.
“Privatizar essas empresas é fazer com que a água e a energia fiquem mais caras para a população mineira. A qualidade vai cair e nós podemos ter muitas pessoas demitidas. Para aumentar os seus lucros, as empresas privadas aumentam a tarifa e demitem trabalhadores. Essa é a experiência vivida por outros estados, como São Paulo e Rio de Janeiro. Essas privatizações não têm nada a ver com a adesão ao Propag e se tratam apenas da entrega de empresas referências em todo o mundo para o setor privado”, crítica o deputado estadual Betão (PT).
Já Beatriz Cerqueira (PT), também deputada estadual, denuncia que outra questão preocupante é o fato de as privatizações estarem avançando no estado sem o devido debate público com os usuários dos serviços e com os demais poderes.
“O governador foge do debate, não conseguiu trazer informações consistentes e fundamentadas sobre porque a privatização seria o melhor caminho e vai nas suas redes sociais mentir para a sociedade, porque rede social aceita tudo. É lamentável”, destaca a parlamentar.
Lacração
Na avaliação da oposição, diante da ausência de um legado positivo deixado por seu governo, tem sido justamente essa a estratégia na qual Romeu Zema aposta, a de “lacrar nas redes sociais”.
No último ano, o governador passou a se envolver em polêmicas no mundo digital, além de publicar sucessivos vídeos considerados sensacionalistas pelos críticos. Ele chegou a publicar um vídeo comendo banana com casca e outro, feito com Inteligência Artificial, no qual aparece “blindado”, após o Senado ter derrubado a PEC da Blindagem.
“É muito cara de pau, no mínimo, o Zema deixar de governar Minas Gerais e só ficar lacrando nas redes sociais, como ele está fazendo. Isso é postura de um chefe de Estado? É uma estratégia muito baixa. Zema não governa Minas, mas faz campanha para a presidência ou para o Senado com dinheiro público”, questiona o vereador de BH Bruno Pedralva.
Outro lado
O Brasil de Fato MG procurou o governo de Minas para comentar sobre as denúncias, mas não obteve respostas até o momento de publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.
Editado por: Elis Almeida