Escrito por: Wagner Xavier/Revista Fórum

Romeu Zema é o pior governador que Minas Gerais já teve

Governar não é apenas reclamar da herança recebida, mas assumir responsabilidades e reduzir passivos. Os números demonstram que, sob Zema, a dívida não diminuiu — ela explodiu

Zanone Fraissat/Folhapress

Em base de fatos públicos e decisões políticas concretas é correta a afirmação de que Romeu Zema foi o pior governador que Minas Gerais já teve. A análise se apoia em quatro eixos centrais: gestão da dívida pública, uso dos recursos oriundos dos crimes da Vale, acordos lesivos ao Estado (Lei Kandir) e política de isenções fiscais concentradas em grandes empresas.

A dívida de Minas: responsabilidade não é discurso, é gestão

Quando Fernando Pimentel assumiu o Governo de Minas Gerais, o Estado já se encontrava em grave crise fiscal, com uma dívida elevada herdada de governos anteriores. Ainda assim, durante seu mandato (2015–2018), Minas pagou regularmente as parcelas da dívida com a União ao longo de quatro anos, mesmo diante de severas restrições orçamentárias, queda de arrecadação e pressões sociais.

Além disto Minas não aderiu a LC 159/2017, o RRF (Regime de Recuperação Fiscal) de setembro de 2017. O Rio de Janeiro aderiu e recebeu R$ 62 bilhões de alivio fiscal (suspensão da divida por 03 anos, autorização federal para novos empréstimos de R$ 20 bilhões), em troca o Governador Pezão encaminhou a privatização da CEDAE (2021) congelou salário e fez uma reforma da previdência estadual e implantou um teto de gasto.

Pimentel não aceitou privatizar a CEMIG e COPASA, em troca da suspensão temporária do pagamento da divida com a União e um alivio bilionário imediato no caixa e autorização de novos empréstimos. Mesmo diante de uma das piores situações fiscais da história do Estado, o governo Pimentel fez uma escolha politica fundamental: não abrir mão do patrimônio público mineiro. Ele ainda autorizou o aporte de R$ 128,4 milhões como AFAC (Adiantamento para Futuro Aumento de Capital) na COPASA para resolver a crise hídrica da RMBH. Essa decisão não foi casual. Foi uma decisão de projeto. Vender patrimônio público para resolver crise fiscal é trocar um bem permanente por uma solução temporária.

Em 2019, primeiro ano do governo Romeu Zema, a dívida consolidada de Minas Gerais era de aproximadamente R$ 113,36 bilhões. Ao final de 2025, após sete anos de governo Zema, a dívida estadual ultrapassou R$ 201 bilhões, sendo R$ 177,48 bilhões apenas com a União. Trata-se de um crescimento superior a R$ 87,64 bilhão de endividamento estadual.

Durante esse período, o governo Zema se valeu de uma sentença de congelamento do pagamento da dívida com a União, ficando a maior parte do tempo, sem fazer pagamento nenhum, fazendo ter um enorme crescimento do passivo. A opção política foi a suspensão recorrente dos pagamentos, a judicialização da dívida e, posteriormente, a adesão a regimes que empurram o problema para o futuro.

Governar não é apenas reclamar da herança recebida, mas assumir responsabilidades e reduzir passivos. Os números demonstram que, sob Zema, a dívida não diminuiu — ela explodiu.

Recursos da Vale: bilhões recebidos, resultados limitados

Outro elemento central dessa avaliação é o volume expressivo de recursos recebidos pelo Governo de Minas em razão dos crimes ambientais cometidos pela Vale, especialmente após as tragédias de Mariana e Brumadinho.

No caso de Brumadinho, o acordo judicial firmado em 2021 prevê R$ 37,69 bilhões em recursos de reparação. Já no caso de Mariana, um novo acordo fechado em 2024/2025 prevê cerca de R$ 132 bilhões, a serem pagos ao longo de até 20 anos pelas mineradoras envolvidas (Vale, BHP e Samarco), sendo R$ 100 bilhões em novos recursos.

Esses valores representam uma oportunidade histórica para:

Entretanto, o governo Zema não conseguiu converter esses recursos extraordinários em melhorias estruturais duradouras para o povo mineiro. Persistem críticas quanto à lentidão, à fragmentação dos investimentos e à ausência de um projeto estratégico que transformasse esses bilhões em legado social efetivo.

O acordo vergonhoso da Lei Kandir

A postura submissa do governador também ficou evidente no acordo firmado com o Governo Temer para a compensação das perdas da Lei Kandir. Minas Gerais é historicamente um dos estados mais prejudicados pela desoneração das exportações, especialmente de minérios.

Estudos técnicos e reivindicações oficiais apontavam que Minas Gerais teria cerca de R$ 135 bilhões a receber pelas perdas acumuladas de arrecadação de ICMS ao longo das décadas.

Apesar disso, o acordo efetivamente aceito pelo governo Zema prevê o repasse de apenas R$ 8,7 bilhões até o ano de 2037 — uma fração mínima do valor devido. Absurdo.

Esse acordo representou:

Aceitar esse acordo não foi um gesto de responsabilidade fiscal, mas sim de conformismo político e fragilidade na defesa dos interesses mineiros.

Isenções fiscais: o Estado mínimo para o povo, máximo para os amigos

Romeu Zema consolidou-se como o governador que mais concedeu isenções fiscais na história de Minas Gerais. Dados oficiais indicam que a renúncia fiscal estadual cresceu de forma acelerada durante seu governo:

Ou seja, mais de R$ 20 bilhões por ano deixam de entrar nos cofres públicos, mesmo em um estado que alega crise fiscal permanente.

Em vez de uma política seletiva, transparente e voltada ao desenvolvimento regional, o que se viu foi uma distribuição concentrada de benefícios a grandes empresas, muitas delas ligadas ao seu círculo político e empresarial. O caso da Localiza, gigante do setor de locação de veículos, é emblemático.

Na prática, o governo Zema implementou um modelo em que:

AFIRMO:

A soma desses fatores — a pior gestão da dívida, o desperdício de recursos extraordinários, acordos lesivos ao Estado e uma política fiscal voltada aos grandes grupos econômicos — sustento a afirmação de que Romeu Zema não apenas fracassou como gestor, mas aprofundou problemas históricos de Minas Gerais.

Mais do que um governador ineficiente, Zema simboliza um projeto de Estado que  protege interesses privados, enfraquece o papel do poder público e ataca direito da população. Sob essa perspectiva, afirmar que ele foi o pior governador que Minas Gerais já teve não é exagero retórico, mas uma conclusão baseada em fatos e escolhas políticas concretas.

Wagner Xavier – Pedagogo. Assessor do SindaguaS. Sindicato dos Trabalhadores nas indústrias de purificação e distribuição de água e em serviço de esgoto do Estado de Minas Gerais.