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Eletricitários, CUT/MG, sindicalistas e deputados contestam presidente da Cemig

Fechamento da base do bairro São Gabriel afasta equipes da companhia da população do Vetor Norte e vai piorar ainda mais o atendimento no período chuvoso. Medida faz parte do processo de privatização da empresa

Publicado: 25 Setembro, 2019 - 12h58 | Última modificação: 25 Setembro, 2019 - 17h15

Escrito por: Rogério Hilário, com informações da ALMG

Rogério Hilário
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As justificativas do diretor-presidente da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Cledorvino Belini, para o fechamento da base operacional de São Gabriel foram contestadas em audiência pública realizada na noite de terça-feira (24), na Assembleia Legislativa. Belini atendeu a convocação feita pela Comissão do  Trabalho, da Previdência e da Assistência Social.

Para deputados, eletricitários, eletricitárias e dirigentes sindicais, a transferência das equipes para a base do Anel Rodoviário faz parte do processo de privatização da empresa pública, com o distanciamento de eletricistas e consumidores, com prejuízos para mais de 1 milhão de pessoas, sobretudo do vetor Norte da Capital, além de outros municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Eles pediram a reversão do fechamento da base e a abertura de diálogo.

A transferência dos trabalhadores da base São Gabriel para a base do Anel Rodoviário, na divisa entre BH e Contagem, também foi criticada, inclusive em função do trânsito intenso no Anel, que pode dificultar o deslocamento das equipes de atendimento. Para os sindicalistas, a lógica é depreciar a Cemig e piorar seu atendimento para justificar sua privatização, intenção já anunciada pelo governador Romeu Zema.

Economia

Belini afirmou que o fechamento da base São Gabriel, ocorrida neste mês, vai gerar economia de R$ 1,2 milhão/ano, gastos hoje com manutenção, limpeza e segurança, entre outros. Além disso, segundo ele, a venda do prédio geraria entre R$ 12 milhões e R$ 13 milhões para investimentos na melhoria do serviço, reduzindo cortes de energia, por exemplo.

De acordo com o presidente, desde 2003 a Cemig não cumpre os marcos regulatórios, deixando de investir cerca de R$ 500 milhões/ano. “Temos R$ 12 bilhões em dívidas, tomados há dois anos, com custo elevado. Perdemos 50% da capacidade de geração, com a perda de outorgas em 2017. Precisamos de R$ 5 bilhões para outras que estão vencendo. Se não cuidarmos, a empresa pode quebrar”, apontou.

O superintendente de Serviços Comerciais e Emergenciais da Cemig, Mauro Campos, explicou o fluxo de atendimento aos consumidores e ressaltou o papel da tecnologia nessa logística, como o uso de georreferenciamento para interligar rapidamente os pontos de demanda e as equipes espalhadas pela RMBH. Segundo ele, a base do Anel Rodoviário tem condições plenas de receber os trabalhadores do São Gabriel e está, justamente, no ponto de maior demanda na RMBH.

O distanciamento entre os eletricistas e os consumidores trará prejuízos para a sociedade, mas também para a própria Cemig. O alerta vem dos representantes dos trabalhadores, que citam risco de não atendimento do DEC, um indicador de continuidade estabelecido pela agência reguladora (Aneel) que fixa o tempo que o consumidor pode ficar sem energia ao longo do ano.

“Qualquer projeto de eficiência tem que considerar a agilidade do serviço”, pontuou o coordenador-geral do Sindieletro-MG, Jefferson Teixeira da Silva. Segundo ele, 50 pequenas bases já foram fechadas no Estado, no início deste ano, sem nenhuma negociação. Entre os vários exemplos, ele citou o fim da unidade em Jaboticatubas, que atendia toda a região da Serra do Cipó. O atendimento, que tinha vindo para o São Gabriel, agora ficará no Anel Rodoviário.

“O fechamento da base faz parte de um processo contrário ao que motivou a criação da Cemig, que surgiu para incentivar o desenvolvimento e o crescimento econômico do Estado. Cada base garante o eletricista mais próximo da população para que ela tenha disponibilidade de energia o maior tempo possível, com o atendimento rápido e eficiente. No governo Itamar Franco, a Cemig foi reconhecida como a melhor energia do país, com média anual de um dígito – 9 horas – de indisponibilidade no fornecimento. A Eletropaulo, que tinha 13 horas, passou a 23 horas anuais, com a privatização”, acrescentou Jefferson da Silva.

“Neste ano, entre fevereiro de março, já foram fechadas 50 localidades no interior, distanciando os eletricistas dos consumidos. Anteriormente, houve outras tentativas, com o argumento da redução dos custos. Mas conseguimos revertê-las com o diálogo e a negociação. Percebemos que os critérios para transferências de equipes e fechamento de bases e localidades partem de uma perspectiva econômica e o atendimento a uma política de mercado. São equivocadas e só trazem prejuízos para eletricitárias e eletricitários e a população”, analisou o coordenador-geral do Sindieletro-MG.

“É uma política de financeirização, priorizar os lucros, que está acentuando a precarização e o sucateamento da Cemig.  Há tempo de rever o fechamento da base, ouvir trabalhadoras e trabalhadores. Este é o caminho para uma Cemig pública, eficiente e com condições de trabalho dignas. O sindicato está à disposição. Podemos ajudar em algumas alternativas”, concluiu.

“O processo desencadeado agora já aconteceu nos anos 1990: está ligado à privatização. Não tem nada de novo. O fechamento da base do bairro São Gabriel é para piorar o atendimento no período chuvoso, para que a população, em um plebiscito, seja convencido a votar  a favor da venda da Cemig. A companhia está abandonando o Vetor Norte, região com 1,5 milhão de pessoas. Não vai prestar o serviço no tempo adequado. Nos anos 1990, transferiram do Anel para o São Gabriel e, agora, 20 anos depois, acreditam na mágica de atender bem com o deslocamento maior”, afirmou o secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT/MG), Jairo Nogueira Filho. Ele destacou que a base São Gabriel arrecada mais de R$ 2 bilhões por ano, sendo, portanto, lucrativa.

“O diretor-presidente da empresa alega que vai economizar R$ 1,2 milhão por ano com a transferência. Ora, é o mesmo que a Cemig paga anualmente para ele. Somente um funcionário custa o mesmo que a base. Falar que o São Gabriel é um elefante branco é irreal. Ao redor não existia nada, antes da instalação da base. Estamos chegando ao período chuvoso, quando a demanda por atendimento cresce e todas as equipes são deslocadas para atendimentos de emergências. Que são imprevisíveis, pois as previsões do tempo não são precisas. E teremos desclocamentos de duas horas ou mais, a partir da base do Anel Rodoviário. É preciso lembrar que trabalhamos com um produto de risco e ficaremos menos tempo à disposição da população. A Cemig vai expor trabalhadores ao risco e a população à demora no restabelecimento do fornecimento de energia elétrica”, destacou Jairo Nogueira Filho.

“Não temos dúvida: a lógica é sucatear e vender a Cemig o mais rápido. Só que o diretor-presidente da Cemig precisa conversar mais com o governador Romeu Zema sobre o assunto. Belini diz que a empresa é eficiente e o Zema afirma que ela é um estorvo para a economia do Estado. A base do São Gabriel tem que voltar. Estou preocupado. Pode acontecer algo grave e a Cemig não ter condições de atender a tempo”, disse o secretário-geral da CUT/MG.

Elisa Carolina Cândido, do Sindieletro, citou ainda o fechamento da base Itambé, que cuida da fiação subterrânea do hipercentro de Belo Horizonte. As equipes, segundo ela, foram deslocadas para a Cidade Industrial. Ainda na fase de debates, houve também questionamentos sobre as condições de trabalho na Cemig e sobre a possibilidade de privatização.

Deputados pedem diálogo

A deputada Beatriz Cerqueira (PT) e os deputados Celinho Sintrocel (PCdoB) e Betão (PT), autores do requerimento para a audiência, cobraram diálogo da Cemig com os trabalhadores e também com os 11 municípios que serão afetados pelo fechamento da base São Gabriel. Nesta quarta-feira (25), inclusive, essas cidades serão ouvidas em audiência da Comissão de Administração Pública, às 16 horas.

Beatriz Cerqueira citou audiência realizada antes do fechamento, na qual não houve representação da Cemig. “Visitei a base e não havia data prevista para fechamento. Dias depois, ela foi fechada”, criticou. Segundo ela, os próprios trabalhadores de São Gabriel foram avisados numa quinta-feira que a mudança se daria na segunda-feira seguinte. “O Anel Rodoviário ficou fechado por 12 horas ontem (segunda-feira)”, reiterou, antevendo dificuldades no atendimento da Cemig.

Betão lembrou o fechamento de outras unidades no Estado e o prejuízo também para os trabalhadores. “No Sul de Minas, o atendimento de Bom Jardim de Minas foi para Caxambu, a quase cem quilômetros”, citou. Ele também manifestou temor de que esteja ocorrendo um “desmantelamento de uma empresa lucrativa com vistas à privatização”.

Já Celinho do Sintrocel reforçou o pedido ao presidente da Cemig para que abra um canal de diálogo com os trabalhadores, com o objetivo de corrigir decisões eventualmente equivocadas. “Me preocupa também o Vale do Aço. Minha casa já ficou 12 horas sem energia. A Cemig se propõe a corrigir isso com investimentos. Se não resultar em sucesso, teremos muitas audiências aqui para tratar disso”, pontuou.

O deputado Alencar da Silveira Jr. (PDT) também esteve na audiência e citou o exemplo de Goiás, onde, segundo ele, 89% da população já se posiciona contra a empresa que assumiu a estatal de energia, apenas dois meses depois da privatização. “Vamos receber aqui a comissão da Assembleia Legislativa de Goiás para ver o que aconteceu por lá. Já houve um aumento na conta de 17%”, adiantou, defendendo a manutenção do “patrimônio de Minas Gerais”.