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Plenária sobre a condição da mulher negra é momento mais emocionante do Encontro dos Movimentos Sociais

Militante da Marcha Mundial de Mulheres traz a memória da mulher escravizada e violentada de quem todas as mulheres negras de hoje são descendentes

Publicado: 04 Maio, 2015 - 13h06

Escrito por: Quem Luta, Educa

Andreia Roseno, da Marcha Mundial de Mulheres, fala durante o 6Andreia Roseno, da Marcha Mundial de Mulheres, fala durante o 6Muita emoção no último dia do 6° Encontro Estadual dos Movimentos Sociais, no domingo (3).  A plenária das mulheres homenageou as mulheres negras relembrando a sofrida luta pela dignidade que encaram há 400 anos. Lágrimas e indignação nos olhos das centenas de mulheres compondo a plenária, enquanto Andreia Roseno, militante da Marcha Mundial das Mulheres  (MMM) traz a memória da mulher escravizada e violentada de quem todas as mulheres negras de hoje são descendentes. 400 anos de chibatas, estupro, humilhação, essa é a inaceitável historia da diáspora negra no Brasil.

“Nos éramos as negras gostosas do sexo bom, porque nosso quadril era largo e nossa coxa generosa. Eles jogaram óleo no nosso corpo para nos vender como bichos e até nos impediram de exercer nossa fé que era nosso único meio de resistência”, diz Andreia, emocionada.

Segundo Andreia, até o dia 13 de maio 1888, dia da abolição da escravidão enaltece a elite branca que assinou a lei Áurea enquanto inúmeros negras e negros, que a história nacional esqueceu, lutaram anos atrás para a abolição acontecer de fato. Enquanto isso, o dia da consciência negra, dia 20 de novembro que homenagem Zumbi dos Palmares e Dandara entre outros heróis que construíram a luta pelos direitos da população negra no Brasil, ainda não é comemorado em todo o país.

A escravidão foi abolida, mas a sociedade brasileira permanece racista e machista. “Após 400 anos de negação dos nossos direitos sem nenhuma reparação do Estado, eles ainda vêm nos perguntar por que queremos cotas e políticas afirmativas, taxando a gente de separatistas!”.

Para Andreia e todas as mulheres que depois se reuniram em grupos de discussão, a burguesia tem medo de ver as mulheres negras se empoderar e afirmar suas exigências. A plenária mostrou para todos os participantes a importância de não aceitar mais nenhuma forma de humilhação, principalmente as mais miúdas do cotidiano que chegaram a passar despercebidas.  “Seguiremos em frente até que todas sejamos livres”, foi o lema que a plenária clamou até o fim da plenária.

Um novo momento das lutas sociais em Minas Gerais

O 6º Encontro de Movimentos Sociais realizado entre 1 e 3 de maio na praça da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) reuniu cerca de 1.500 pessoas vindas de 143 cidades mineiras representando 100 organizações sociais do campo e da cidade: estudantes, professores, sem-terra, atingidos por barragens, religiosos e religiosas, membros de pastorais sociais, de partidos, de movimentos de mulheres e pelos direitos LGBT, educadores populares, agricultores familiares, eletricitários, organizações de juventude, movimento negro, entre muitos outros.

O encontro foi aberto com uma marcha no Dia do Trabalhador que denunciou os crimes financeiros do HSBC, descomemorou  os 50 anos das Organizações Globo e repudiou a política econômica de ajuste fiscal imposta pelo ministro Joaquim Levy com um ato na sede do Banco Central em Belo Horizonte.

Motivados pelo tema “O Povo tem Pressa do Projeto Popular”, os presentes fizeram a análise de conjuntura do momento político, debateram as pautas que estarão na agenda da classe trabalhadora no próximo período e como as organizações devem trabalhar para conquistar a unidade e fazer as grandes mobilizações.

Para Joceli Andrioli, da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), “o 6º encontro foi um marco nesta nova conjuntura nacional e internacional quando o imperialismo nos ataca diretamente de olho nas nossas riquezas, sobretudo o petróleo. Enquanto isso, os conservadores no Brasil avançam, se organizam, vão às ruas e fazem os piores ataques aos direitos dos trabalhadores desde a ditadura militar. Não há mais chance para conciliação de classe,” afirma.

Beatriz Cerqueira, presidenta da  Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT/MG) e coordenadora-geral do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE/MG), afirma que as expectativas da articulação Quem Luta Educa foram superadas. “O encontro superou tudo que nós esperávamos em termos de quantidade e de envolvimento. A presença massiva, consciente, disciplinada das organizações mostra que estamos dispostos a fazer a grandes lutas que o nosso estado e o Brasil precisam.” Beatriz também destacou a presença das mulheres na atividade “o que mostra que elas estão se apoderando e se tornando protagonistas desta luta e vencendo resistências em suas próprias organizações”, conclui.

Juventude que ousa lutar faz história

 Uma das novidades do encontro deste ano foi a realização do Encontrão de Juventude, organizado pelo Levante Popular da Juventude, que reuniu cerca de 400 jovens vindos de várias regiões do Estado. São estudantes universitários, secundaristas, jovens do campo e das periferias urbanas que discutiram temas fundamentais da conjuntura atual como a luta pela reforma política com Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político.

“A ideia foi juntar esta juventude toda para fazer a luta política de forma organizada. Debater como o atual sistema político não permite a participação de jovens, negros e mulheres e como o atual congresso vem destruindo os sonhos da juventude trazendo projetos como a redução da maioridade penal e a terceirização sem limites que precarizará ainda mais a condição de trabalho da juventude no campo e na cidade”, afirma Ana Júlia, da coordenação estadual do Levante Popular em Minas Gerais.