• TVT
  • RBA
  • Rádio CUT
MENU

Presidente da Cemig é convocado para falar sobre base do São Gabriel

Não comparecimento à audiência pública que debateu impacto do possível fechamento de unidade operacional motivou requerimento

Publicado: 21 Agosto, 2019 - 12h52 | Última modificação: 21 Agosto, 2019 - 13h03

Escrito por: Rogério Hilário, com informações da ALMG

Flavia Bernardo - ALMG
notice

 

A ausência não justificada do diretor-presidente da Cemig, Cledorvino Belini, em audiência pública realizada nesta terça-feira (20) pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) motivou a aprovação de um requerimento para sua convocação em nova reunião. O requerimento foi aprovado na própria terça-feira pela Comissão do Trabalho, da Previdência e da Assistência Social.

A audiência pública desta terça discutiu o impacto do possível fechamento da base operacional da Cemig no Bairro São Gabriel, em Belo Horizonte. Autora do requerimento para realização da reunião, a deputada Beatriz Cerqueira (PT) criticou duramente a ausência de representante da Cemig. “Lamento a postura da Cemig, que é de desrespeito ao Poder Legislativo”, afirmou.

O presidente da Comissão do Trabalho, deputado Celinho Sintrocel (PCdoB), e o deputado Betão (PT) também criticaram a ausência e acompanharam Beatriz Cerqueira na apresentação e aprovação do requerimento para o comparecimento obrigatório do principal dirigente da estatal mineira.

Os três parlamentares, assim como os convidados presentes, afirmaram que o fechamento das bases operacionais é uma estratégia para precarização dos serviços de manutenção de maneira a convencer a população a aceitar a privatização da Cemig. “É uma política de piorar o serviço público para colocar a população a favor da privatização”, acusou o deputado Betão. A legislação mineira estabelece que a privatização da empresa deve ser precedida por consulta à população.

De acordo com o coordenador-geral do Sindicato dos Eletricitários de Minas Gerais (Sindieletro), Jefferson Leandro Teixeira da Silva, desde fevereiro de 2019 foram fechadas 54 bases operacionais da Cemig em todo o Estado. “O fechamento leva a uma condição de manutenção extremamente precarizada e vai dar problema em todos os locais do Estado”, afirmou.

“Nós, trabalhadores, queremos deixar bem claro que o problema da Cemig é de gestão. Não somos responsáveis pelos desmandos da direção, pela proposta de redução do custo para a maximização do lucro, que no semestre foi de mais de R$ 2 bilhões. E coloca tudo na conta dos trabalhadores, com medidas abusivas, como trabalhadores com 55 anos sendo demitidos, enquanto que gerentes e superintendentes têm PDV em que ganham prêmios por cada ano de serviço prestado. O custo disso é de quase R$ 1 milhão. Estamos na luta para que seja corrigida esta política de privatização. Precisamos ouvir do presidente da Cemig o que levou a esta atitude. Ele tem muito o que explicar”, disse o coordenador-geral do Sindieletro-MG.

A Cemig, segundo ele, “não foi criada para alimentar o lucro e sim para dar apoio ao desenvolvimento”. “Os últimos resultados positivos foram no governo Itamar Franco, quando a Cemig recebeu o título de melhor empresa do país. E, depois, a política foi se aproximando do capital. Indo na contramão do que Juscelino Kubitschek e Itamar Franco fizeram. A base do bairro São Gabriel já teve 300 trabalhadores no quadro próprio. Temos que lutar juntos para reverter o processo de fechamento das unidades. E denunciar que a responsabilidade pelas consequências desta política é da direção da Cemig.”

O prefeito de Jaboticatubas (Região Metropolitana de Belo Horizonte), Eneimar Marques, participou da reunião e criticou o fechamento da base da Cemig naquela cidade, ocorrido em 2018. Ele afirmou que isso já prejudicou o atendimento à população.

“Por duas vezes, os consumidores de Jaboticatubas serão prejudicados. Com o fechamento da unidade da cidade, que precarizou o atendimento quando as demandas foram transferidas para a São Gabriel e, agora, com a perspectiva de fechamento da base do São Gabriel. Municípios vizinhos, que perderam com a transferência para lá e vão perder ainda mais com a ida da base para o Anel Rodoviário. O tempo de deslocamento de uma equipe vai aumentar em até 1 hora e meia. Nossa região tem um complexo de granjas que dependem muito da energia elétrica. Teremos um prejuízo muito grande com a precarização da prestação de serviços. Já fomos prejudicados com a terceirização, que levou a ligações clandestinas, feitas por ex-trabalhadores de empresas contratadas. Estamos com vocês. O consumidor não pode ficar em segundo plano”, disse o prefeito de Jaboticatubas.

Unidade é responsável por atendimento a centenas de milhares de consumidores

De acordo com os participantes da reunião, o fechamento de São Gabriel estaria previsto para setembro. “Só no vetor norte (da Região Metropolitana) de Belo Horizonte, 700 mil consumidores são atendidos por São Gabriel. Dizem que há os terceirizados, mas sabemos que eles não têm a mesma condição de trabalho”, afirmou Jefferson Silva.

Para a deputada Beatriz Cerqueira, é necessário evitar o fechamento da unidade de São Gabriel para interromper um processo de privatização que trará muito prejuízo não só para os trabalhadores demitidos, mas também para a população, em decorrência do aumento da tarifa de energia elétrica.

“A luta contra o fechamento de São Gabriel é uma luta de todos”, afirmou a deputada. “Há um discurso raso e falso de que tudo o que é público é ruim e tudo o que é privado é bom. A Vale é o melhor exemplo do que é privado”, argumentou Beatriz Cerqueira, em referência aos rompimentos de barragens de rejeitos de minério, que causaram centenas de mortes e imenso prejuízo econômico, social e ambiental.

Eduardo Pereira de Almeida Júnior, trabalhador da Cemig há 30 anos, se emocionou ao falar sobre o fechamento das bases e a política de privatização da empresa. “O presidente da Cemig só aparece em memes e com frases de efeito. Nós nunca o vemos. Ele não conhece a situação que vive os consumidores. Hoje, estava almoçando no Bairro Serra Verde e um cliente reclamou que estava sem luz desde as 8 horas. Eu falei que uma equipe já estava no local. Ele não ficou satisfeito. A empreiteira que atende fica no Vilarinho e, mesmo assim, demorou tanto tempo. Esta tragédia é reflexo da gestão da empresa. As contratadas não dão conta do atendimento no período de estio, imagine quando chegar o período das chuvas.”

Para Eduardo de Almeida Júnior, a formação técnica dos terceirizados também contribui para o atendimento precarizado. “A formação é diferente da nossa. Se está assim em Belo Horizonte, esperem para ver no interior. Criamos nossa vida ao redor da base de São Gabriel. Agora, com o fechamento, que dão como certo, apesar da nossa resistência, o deslocamento não importa para a Cemig. Mas, não é apenas esse o impacto. O São Gabriel cresceu ao redor da base. Ela tem uma área verde muito grande, que o bairro vai perder. O comércio o bairro vai sofrer. A Cemig alega que vai economizar R$ 1 milhão com o fechamento. Quem acredita que, com isso, o preço da energia elétrica vai ficar barato, que o tempo de atendimento ao consumidor será o mesmo ou menor? Antes chegamos a pensar que está vamos sozinhos. Nas assembleias e nesta audiência, vimos que não estamos sós”, avaliou o trabalhador da Cemig.

O secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT/MG) e diretor do Sindicato Intermunicipal dos Trabalhadores na Indústria Energética de Minas Gerais, Jairo Nogueira Filho, afirmou que há 115 trabalhadores na base São Gabriel. Ele afirmou que o fechamento interessa apenas aos eventuais compradores da Cemig em uma futura privatização, uma vez que a precarização do serviço abaixaria o preço da empresa no mercado.

“O presidente da Cemig, em outras ocasiões, demonstrou que conhece muito pouco a empresa. E, por não vir aqui, tenta passar a perna nos deputados, para vender a Cemig. A base do Anel Rodoviário já não comporta os técnicos que trabalham lá. Imagine o que vai acontecer quando receber mais 115 servidoras e servidores. Quando entramos na Cemig, há 30 ou 35 anos, fomos orientados que os consumidores eram principais atores. A prioridade era o cliente. Hoje, é ter mais lucro para os acionistas, o cliente pouco importa. Nós estamos combatendo isso e a população tem que nos ajudar. Pouco importa se em Jaboticatubas tem um cabo energizado na rua. Em Bandeira do Sul, por causa disso, 16 pessoas morreram”, disse o secretário-geral da CUT/MG.

“O presidente da Cemig fala em economizar R$ 1 milhão com o fechamento da base do Bairro São Gabriel, que atende a 700 mil consumidores. Só com as tarifas, a base contribui com R$ 1,7 bilhão em arrecadação. E com o PDV de gerentes e superintendentes, a empresa vai gastar quase R$ 1 milhão. A Cemig está deixando os seus clientes de lado, para ganhar mais tirando os direitos dos trabalhadores e precarizando o serviço prestado à população. E, com a privatização, as tarifas vão aumentar, e muito. O tempo de atendimento vai demorar muito mais. A base São Gabriel é apenas um exemplo do que vai acontecer. A Cemig tem o potencial de gerar 30 mil empregos, com concurso público, neste tempo de crise, pois gera lucro”, afirmou Jairo Nogueira Filho.

Ao final da reunião, a deputada Beatriz Cerqueira afirmou que já um requerimento aprovado para uma visita parlamentar à base operacional da Cemig em São Gabriel. Segundo ela, essa visita deverá acontecer na próxima semana. Em seguida, deverá ser agendada a reunião para ouvir o presidente da estatal, desta vez como convocado, e não como convidado.