Saúde mental afasta quase meio milhão de brasileiros do trabalho em 2024
Em minas são 60 mil. Nossa meta é lutar pela saúde no trabalho com foco na saúde mental e na NR-1 que entra em vigor em maio
Publicado: 19 Janeiro, 2026 - 15h49 | Última modificação: 19 Janeiro, 2026 - 16h07
Escrito por: Carlos Calazans
Por Carlos Calazans - Superintendente Regional do Trabalho em Minas Gerais
Em 2026, o Ministério do Trabalho e Emprego em Minas Gerais, por meio da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE-MG), vai iniciar uma grande campanha pela saúde no trabalho. Faço questão de dizer isso com clareza: fazemos todos os esforços, todo o trabalho para cuidar das pessoas quando o assunto é saúde e segurança no trabalho.
E, para que a gente consiga dialogar com todo o mundo produtivo e todo o mundo do trabalho em Minas Gerais, precisamos levar em consideração um ponto decisivo: em maio de 2026 entra em vigor a NR-1, que dialoga com os riscos psicossociais no trabalho, ligados às questões de saúde mental, comportamental e ao ambiente de trabalho como um todo.
Por isso, a SRTE-MG vai fazer um grande esforço, dialogando com todos os segmentos produtivos: empregadores da área do serviço, do comércio, da indústria e do meio rural. O objetivo é discutir o cuidado com a saúde mental dos trabalhadores e como melhorar o ambiente de trabalho. Quero que a gente consiga construir um ambiente respeitoso, correto, em que as pessoas colaborem, se interajam, criando um espaço propício ao desenvolvimento das pessoas, ao bom serviço e às adequações necessárias para tornar o trabalho melhor.
Para esse diálogo ser sério e efetivo, é fundamental tratar também dos números: dados que foram analisados, pesquisados e estão à disposição de todos. Eles nos ajudam a enxergar, com mais precisão, a situação que envolve a saúde mental e a saúde física dos trabalhadores de Minas Gerais e do Brasil.
Números alarmantes
De 2020 a 2024, tivemos um aumento de 5,93 vezes no número de casos de trabalhadores que tiveram a doença de Burnout. Em 2024, foram 4.880 casos. E, para se ter uma ideia do tamanho do problema, só nos primeiros seis meses de 2025 nós já tivemos 3.494 casos registrados no Ministério da Previdência Social no Brasil — casos em que foram requeridos benefícios.
Quando olhamos para a concessão de benefícios por incapacidade temporária ligada à saúde mental nos últimos dez anos, o quadro também impressiona. Em 2014, nós tínhamos 221 mil pessoas nessa situação. Em 2024, esse número saltou para 472 mil pessoas.
Esses dados chamam muito a atenção. Eles nos deixam alarmados, para não dizer assustados. Se nós considerarmos os auxílios-doença por esgotamento no trabalho, pegando a falta de lazer como um componente desse cenário, a alta foi de 493%: passou de 823 em 2021 para 4.880 em 2024. E, de novo, só nos primeiros seis meses de 2025, já chegamos a 3.494.
Repito: são dados alarmantes, se a gente pensa como o trabalho no Brasil tem adoecido, esgotado e mutilado pessoas. Em 2024, o INSS concedeu 472,3 mil auxílios-doença relacionados à saúde mental. E, no conjunto geral, em 2024, tivemos 3,6 milhões pessoas afastadas de seus postos de trabalho. Uma tragédia humana e econômica, visto que o custo anual chega a quase 80 bilhões para os cofres públicos.
Dados dos Gráficos (Página 1)
Afastamentos por burnout crescem 5,93 vezes em 4 anos
- 2021: 823
- 2022: 1.151
- 2023: 1.755
- 2024: 4.880
- 2025 (parcial): 3.494(Os dados levam em consideração auxílios-doença por burnout e falta de lazer. A Previdência passou a ter código específico recentemente).
Crescimento dos gastos com auxílio por incapacidade temporária
(Valores pagos a benefícios ativos entre 2022 e 2024, em R$ milhões)
- 2022: Benefícios por incapacidade: 18,9 | Total: 734,3
- 2023: Benefícios por incapacidade: 22,1 | Total: 802,2
- 2024: Benefícios por incapacidade: 31,8 | Total: 876,9
Concessão de benefícios por incapacidade temporária ligados à saúde mental nos últimos dez anos (em milhares)
- 2014: 221,7
- 2020: Queda acentuada (Em 2020, por causa da pandemia, os benefícios foram concedidos de forma diferenciada)
- 2024: 472,3
Minas Gerais: o retrato do afastamento
Quando a gente traz isso para Minas Gerais, os números também são muito fortes. Do total do Brasil, quase 400 mil pessoas foram afastadas do trabalho em Minas Gerais — eu cito esse retrato na casa de 385 mil a 395 mil afastamentos no estado por auxílio-doença. E, só na saúde mental, nós tivemos em torno de 60 mil pessoas afastadas em Minas Gerais.
Isso significa depressão, transtornos de ansiedade e também o burnout – um esgotamento físico e emocional relacionado ao trabalho, marcado por cansaço persistente, perda de sentido e queda de rendimento, como resultado de pressão contínua e falta de condições adequadas de recuperação.
Doença, dor e acidente: as principais ocorrências
Quando a gente olha o quadro de patologias que mais afastam trabalhadores, fica claro que não se trata de um único setor. Eu estou falando do trabalhador da construção civil, dos trabalhadores de um modo geral, e também de quem passa mais de duas horas no transporte sentado – e, em algumas capitais, até quatro horas sentado. Estou falando de motoristas que trabalham 12, 11, 10 horas por dia sentados, sem exercício, sem descanso, sem postura correta, sem adequação de banco e poltrona.
Estou falando de trabalhadores carregando peso em sacolões, em supermercados, nos vários canteiros e locais da construção civil, descarregando caminhão, carregando peso na indústria de um modo geral. E estou falando, principalmente, de máquinas e equipamentos mutilando e lesionando trabalhadores – tanto nos membros inferiores quanto nos membros superiores. As mulheres também aparecem nesse retrato, com muitos casos de problemas como varizes nas pernas e outras questões ligadas à saúde física.
Tabelas de Afastamento (Página 2)
Doenças que mais deram afastamento no INSS em 2024 vs. 2025 (Concessões em milhares)
Ranking | 2024 (Ano Completo) | Quantidade | 2025 (Janeiro a Junho) | Quantidade |
1 | Dorsalgia | 205,1 | Dorsalgia | 118,6 |
2 | Outros transtornos de discos intervertebrais | 172,5 | Outros transtornos de discos intervertebrais | 103,2 |
3 | Fratura da perna, incluindo tornozelo | 147,7 | Fratura da perna, incluindo tornozelo | 85,9 |
4 | Outros transtornos ansiosos | 141,4 | Outros transtornos ansiosos | 81,9 |
5 | Episódios depressivos | 113,6 | Lesões do ombro | 65,4 |
6 | Lesões do ombro | 112,6 | Episódios depressivos | 63,6 |
7 | Fratura ao nível do punho e da mão | 101,2 | Fratura do antebraço | 53,6 |
8 | Fratura do antebraço | 96,7 | Fratura ao nível do punho e da mão | 53,2 |
9 | Fratura do pé | 94,1 | Fratura do pé | 51,8 |
10 | Convalescença | 72,8 | Convalescença | 40,2 |
11 | Fratura do ombro e do braço | 71,0 | Fratura do ombro e do braço | 39,9 |
12 | Transtornos internos dos joelhos | 59,7 | Transtornos internos dos joelhos | 33,9 |
13 | Hérnia inguinal | 56,1 | Transtorno depressivo recorrente | 30,2 |
14 | Transtorno depressivo recorrente | 52,6 | Transtorno afetivo bipolar | 30,1 |
15 | Leiomioma do útero | 52,5 | Luxação, entorse e distensão... joelho | 29,0 |
Os principais motivos de afastamentos por transtornos mentais em 2024 (Concessões em milhares)
- Outros transtornos ansiosos: 141,4
- Episódios depressivos: 113,6
- Transtorno depressivo recorrente: 52,6
- Transtorno afetivo bipolar: 51,3
- Transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de múltiplas drogas...: 21,5
Nota: No recorte de Minas Gerais, só pegando uma das doenças com maior incidência – as questões ligadas à coluna, dor nas costas, dorsalgia e postura – nós já somamos 55 mil pessoas afastadas por esse tipo de dano, que muitas vezes pode ser irreversível.
Diálogo e mobilização
Diante disso tudo, nós vamos preparar um arcabouço de ações e diálogo em torno da NR-1, que trata da saúde mental, do ambiente de trabalho e da necessidade de produzir ambientes melhores.
Nesse debate, algumas medidas podem beneficiar muito: aumentar o lazer, aumentar o descanso, melhorar o ambiente de trabalho, ter cuidado com a ergonomia, com o peso, com a forma de sentar, para que as pessoas possam trabalhar em condições mais humanas e seguras. O fim da escala 6x1 dialoga com essa perspectiva e pode ajudar muito a melhorar o ambiente de trabalho, contribuindo neste aspecto com a melhoria da saúde do trabalhador e para que a gente vislumbre condições melhores diante de uma tragédia que se repete permanentemente no Brasil.
Também preciso registrar o custo muito grande desse cenário para a Previdência, num momento em que uma parte importante do debate público envolve informalidade e não contribuição ao INSS. E, além disso, há um ponto central: esses números estão muito subnotificados. Basta observar a realidade do trabalho por aplicativos: moto, carro, Uber, 99, iFood.
São milhares de situações de acidentes todos os dias, e esses acidentes muitas vezes não aparecem oficialmente nas estatísticas do INSS, porque não são registrados como acidentes de trabalho, nem como benefícios. Afinal, 70% dos que estão nos aplicativos não contribui com a Previdência. Se a gente considera isso, o quadro real pode ser ainda maior do que o que aparece nos números oficiais – tanto em acidentes quanto em doenças ocupacionais, incluindo adoecimentos mentais.
É por isso que, em 2025, vamos fazer um grande esforço para melhorar a saúde mental por meio do que a NR-1 abre de possibilidades de debate e adequação. Vamos dialogar com todo o mundo do trabalho e queremos apoio e mobilização de todos os setores – psicólogos, assistentes sociais, advogados, instituições, entidades – para melhorar o ambiente de trabalho. Minas Gerais vai se mover para isso. E eu conto com cada um de vocês!
